Poesia: Castro Alves e O Navio Negreiro

O Navio Negreiro (trecho)
Castro Alves — partes IV e V

Era um sonho dantesco… o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros… estalar de açoite…
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar…

Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!

E ri-se a orquestra irônica, estridente…
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais…
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos… o chicote estala.
E voam mais e mais…

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura… se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co’a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?…
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!

 

Castro Alves
Castro Alves

Sobre o autor e a obra

Antônio Frederico de Castro Alves nasceu em 14 de março de 1847, na Fazenda Cabaceiras, então pertencente a Curralinho, no Recôncavo Baiano. O município hoje se chama Castro Alves em sua homenagem. Filho de um médico, estudou em Salvador no Ginásio Baiano, onde já se destacava declamando versos.

Em 1864, ingressou na Faculdade de Direito do Recife, onde conviveu com Tobias Barreto e com o ambiente abolicionista e republicano, e viveu um romance intenso com a atriz portuguesa Eugênia Câmara. Em 1868, transferiu-se para a Faculdade de Direito de São Paulo, onde conheceu Rui Barbosa e Joaquim Nabuco. Nesse mesmo ano, sofreu um acidente de caça que feriu seu pé, depois amputado no Rio de Janeiro. Já debilitado pela tuberculose, voltou à Bahia e morreu em Salvador em 6 de julho de 1871, com apenas 24 anos.

Castro Alves é o principal nome da terceira geração romântica, chamada de “condoreira”, marcada pela grandiloquência, pelas imagens grandiosas e pelo engajamento social. Ficou conhecido como “o Poeta dos Escravos” por sua poesia abolicionista, cujos exemplos máximos são “O Navio Negreiro” (escrito em 1868) e “Vozes d’África”, que denunciam o tráfico e a escravidão com uma força retórica inédita no Brasil.

Ao lado da poesia social, escreveu uma lírica amorosa sensual e moderna para a época, que rompe com a idealização da mulher, como em “Boa-noite” e “O Adeus de Teresa”. Em vida publicou apenas um livro, Espumas Flutuantes (1870), além do drama Gonzaga ou a Revolução de Minas. Postumamente saíram A Cachoeira de Paulo Afonso (1876) e Os Escravos (1883), que reúne “O Navio Negreiro”. É patrono da cadeira nº 7 da Academia Brasileira de Letras.

Onde encontrar: como a obra está em domínio público, pode ser lida gratuitamente no portal Domínio Público (dominiopublico.gov.br) e na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, da USP. Em livro, há edições acessíveis de Espumas Flutuantes e Os Escravos por editoras como L&PM Pocket, Martin Claret e Ática. Para quem visita a Bahia, o Parque Histórico Castro Alves preserva a região da fazenda onde ele nasceu, em Cabaceiras do Paraguaçu.