LUIZ VERZTMAN, patrono da Cadeira 10.
Foi o 12º presidente da Sociedade Brasileira de NIE E (1976-1978), foi também escolhido Patrono da Cadeira Nº 10 da Academia Brasileira de Reumatologia, cujo primeiro ocupante eleito foi seu discípulo Nocy Leite.
Infelizmente, terei que me contentar com a memória, em relação aos seus dados pessoais; pois, após recorrer a amigos e discípulos e até a seu filho médico, nada consegui; sequer sua data de nascimento, filiação, escolaridade, ano de formatura. Como nasceu no Rio de Janeiro, deve ter sido graduado na Faculdade de Medicina da Universidade do Rio de Janeiro; e, após formado, foi admitido no então exemplar Hospital dos Servidores do Estado.
Conheci-o em março de 1959, por ocasião de Simpósio Comemorativo dos Dez Anos de instalação da Unidade de Reumatologia da Policlínica Geral do Rio de Janeiro; através perguntas e respostas, foi feita uma perfeita revisão dos aspectos clínicos, terapêuticos e médicosociais das principais entidades reumáticas. Presente estava um jovem ainda pouco conhecido, que fez uma interpelação inadequada a um dos palestrantes; sendo-lhe mostrado o engano, admitiu-o irrestritamente, de forma elegante e humilde.
Era aquele jovem, apenas Luiz Verztman que, à época já eram reconhecidos seus méritos, como médico de pesquisas na área básica, vez que se dedicava ao laboratório clínico. Algum tempo depois, com à saída de Carlos Silveira, da Chefia do Serviço de Reumatologia, criado por Pedro Nava naquela modelar instituição, assumiria Verztman o cargo, com a responsabilidade de fazê-lo funcionar e o desafio de se tornar o que seria: o maior dos reumatologistas da nova geração.
Em 1960, compareceu ao Ill Congresso Brasileiro realizado no Rio de Janeiro, sem apresentar trabalho; como seu nome não consta da programação do quarto, em Porto Alegre, «ustamente quando Ennio Barcellos Ferreira, dessa cidade, despontava com trabalhos sobre colagenoses.
Este assunto tornar-se-ia de sua especial preocupação e sobre ele haveria de debruçar-se até o fim de sua brilhante, mas curta vida. Destarte, já no V Congresso (Belo Horizonte, 1964) apresentou seis trabalhos, dos quais quatro de sua lavra única e dois, com um de seus primeiros discípulos: Jacob Rubinstein. Todos versavam sobre aquele grupo de doenças, vocação que seu embasamento de homem de ciências básicas, foi corolário natural em sua projeção na clínica médica; cuidando de moléstias que envolviam os mistérios da bioquímica, da fisiopatologia e da Imunologia.
Sem dúvida, Verztman foi, entre nós, o astro maior a iniciar o interesse pelas doenças do colágeno, deixando obra notável, em ensaios, livros, publicações diversas, que o colocam em pé de igualdade com autoridades de outros continentes; haja vista que, já em 1964, publicaria, pela primeira vez na literatura mundial, a presença do Fenômeno LE in vivo, trabalho, até hoje, citado em publicações mundiais.
Sua carreira foi sempre ascendente, seja na produção científica, seja como Chefe de Escola; pois seu Serviço no HSE, com a vantagem de vincular-se ao de Clínica Médica, firmou-se como centro de excelência no estudo e ensino da especialidade, com discípulos e seguidores em todo país. Entre estes, distinguem-se aqueles que lhe acompanhavam de perto: além de Rubinstein, Nocy Leite e Rubem Lederman; e que com e, dedicaram-se também ao ensino formal, na Faculdade de Medicina Souza Marques, tendo Verztman o título de Docência Livre de J Reumatologia (FMUFR)).
Expandia ele, ao redor de si uma aura e um carisma, pelo brilho que emprestava a todas as suas atividades, como filho, pai, e esposo; como médico e humanista, como didata marcante, como Chefe que só não transigia com a mediocridade.
Como homem, vivendo intensamente; no dizer de Lederman, vibrando com futebol, cinema, literatura, música, política, teatro.
Na oportunidade em que Pedro Nava, em 1976, era por ele saudado pelo título “Médico do Ano”, em resposta assim a ele se referiu: “Tenho a honra de haver sido dos primeiros a profetizar, ouvindo-o em uma de nossas reuniões, que ali estava um Professor Nato; “ele nasceu com esta aptidão, como nascem com a sua, os grandes pintores, os grandes músicos; ele veio ao mundo com o dom de ensinar e bem transmitir, graças aos recursos de sua lógica e ao encadeado de seu discurso.”
Como amigo, podem falar melhor aqueles que, com ele, conviveram de perto. No entanto, tenho dois episódios gravados em minha memória, os quais marcaram indelevelmente meu respeito e minha admiração pelo saudoso amigo.
Um deles: seu amigo Acyr Rachid era candidato natural à Presidência da Sociedade Brasileira de Reumatologia, a ser cleito na Assembleia do Congresso de Recife (1970); doença súbita de sua esposa, fê-lo voltar a Curitiba, antes que se realizasse referida reunião. Eis que surge uma nova candidatura com ares de vencedora, ameaçando a de Rachid. Os que conhecem política e suas tramas identificariam oportunidade única para o surgimento e vitória de um fertius que recaindo sobre Verztman, ainda mais, era tranquila escolha. E o que se viu? Toma este a palavra para lembrar a todos, o compromisso com Rachid; e sua ausência, ainda mais o reforçaria para homens de bem; resultado: a vitória deste, com boa margem de votos.
Falei antes, em candidatura natural; prevalecia até então, mas outros ventos começavam a vicejar, levando-as de roldão. Por coincidência, à posse de Rachid em Curitiba (1972), dever-se-ia seguir a escolha do Presidente-Eleito (1974-1976); pelo ultrapassado critério, meu nome seria decorrência natural de quem, por duas vezes cedera sua vez; para Geraldo Gomes, em 1968 (RJ) e o próprio Rachid, anterior a ambos que era eu, na prática e pioneirismo da especialidade. Mas, por manobras que já sepultei, mesmo permanecendo a mágoa de ver nelas envolvidos velhos e duetos amigos, meu nome seria alado da competição; após noite indormida, não pela perda do cargo, mas Justamente pela atitude dos que me atraiçoavam, recebi, ainda cedinho, telefonema de Verztman para ir até seu hotel. Recebeu-me com a fidalguia que lhe era peculiar e pediu-me que desse minha versão; ao final do que, afirmou-me ele, soubesse previamente dela, não teria se comprometido com outrem, A este, não poderia faltar, mas queria dizer-me pessoalmente, às razões de sua conduta; atitude de grandeza e de maturidade de uma personalidade inesquecível.
Vi-o pela última vez, em uma sua vinda à Fortaleza, para, à convite de ex-alunos, proferir; palestras, alguns meses antes de seu precoce falecimento, em 1980. Paguei-lhe tributo, lembrando, os dois episódios aqui historiados e o que representaram para dar ideia clara do caráter de sua pessoa, Olhou-me longamente, sem dizer-me palavra; para depois obsequiar-me com aquele sorriso de todo o rosto, que lhe era peculiar, Benza-o Deus.
Verztman, como não poderia deixar de ser, recebeu múltiplas homenagens, além de exercer os cargos maiores da especialidade: ser Professor “Titular na Faculdade de Medicina Souza Marques, Presidente da Sociedade de Reumatologia do Rio de Janeiro e da Sociedade Brasileira de Reumatologia (1976-1978); neste mandato, criou a FAPAR – Fundação de Amparo à Pesquisa e Assistência Pró-reumático, hoje, infelizmente, em liquidação, fim inglório, por imposição legal. Mas que teve marcada atuação naquilo a que se propôs, inclusive material de ensino da maior qualidade em textos e diapositivos.
Os que fundaram a Academia Brasileira de Reumatologia o consagraram post-mortem, como Patrono da Cadeira Nº 10; e escolheram seu primeiro Membro Titular, a Nocy Leite, um de seus colaboradores primeiros.
Revive Luiz Verztman, a cada dois anos, quando, nos congressos brasileiros, é concedido o Prêmio que leva o seu nome. Melhor maneira não haveria para homenagear personalidade, cuja atuação marcou período dos mais brilhantes da Reumatologia Brasileira.
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O primeiro titular e membro emérito da cadeira foi Nocy Honorato Leite.
Texto do acadêmico Geraldo Wilson da Silveira Gonçalves, no livro “Reumatologia Brasileira: Precursores e Pioneiros“.