Discurso de posse da ABR

Discurso de posse da Drª Sueli Carneiro como presidente da Academia

Discurso de posse da ABR
Dr. Sueli Carneiro no discurso de posse como presidente da Academia Brasileira de Reumatologia (ABR), gestão 2026/2028

Na posse como presidente da Academia Brasileira de Reumatologia (ABR), a Drª Sueli Carneiro, Emérita da Cadeira 8, proferiu o seguinte discurso:

Excelentíssimas Senhoras Acadêmicas,

Excelentíssimos Senhores Acadêmicos,

Minhas amigas, meus amigos,

Senhoras e senhores que nos honram com sua presença.

É com profunda emoção e gratidão que me apresento diante desta Casa para assumir a Presidência da Academia Brasileira de Reumatologia.

Este é, para mim, um momento de grande significado.

Mas, sobretudo, uma imensa responsabilidade.

Assumir a Presidência da Academia Brasileira de Reumatologia é estar na história que começou muito antes de mim.

É ter a honra de participar da visão e da iniciativa daqueles que fundaram esta instituição.

Sabemos que uma Academia não se constrói apenas com nomes, títulos ou solenidades.

Uma Academia se constrói com memória e conhecimento; com ética e fraternidade; com compromisso científico, cultural e humano.

Constrói-se, sobretudo, com a responsabilidade de transmitir às gerações futuras aquilo que recebemos daqueles que nos precederam.

A história desta Academia é feita de nomes que não podemos esquecer.

Entre eles, os professores doutores Caio Vilela Nunes, o idealizador, Jacques Houli, Waldemar Bianchi e Israel Bonomo.

Em 15 de outubro de 1981, foi formalizada a Academia Brasileira de Reumatologia.

E, em 14 de maio de 1982, em sessão histórica na Academia Nacional de Medicina, ocorreu a posse dos primeiros titulares, nossos patronos.

Eu estava lá.

E talvez seja também por isso que esta noite tenha, para mim, um significado tão especial.

Testemunhei os primeiros capítulos desta história.

Hoje, tantos anos depois, recebo a responsabilidade de ajudar a escrever mais um capítulo.

Em dezembro de 1994, tive a honra de tomar posse na Cadeira número 8, cujo patrono é justamente, Israel Bonomo.

Ter como patrono um professor, médico e pesquisador que soube reunir a inquietação científica, o amor ao ensino e a arte de curar foi um privilégio que marcou profundamente minha trajetória profissional e acadêmica.

Na cadeira 8, sucedi a Syllos de Sant’Anna Reis, o querido “tio Syllos”, como era carinhosamente chamado pelos residentes.

Médico, professor e escritor, ele era um homem elegante no trato, generoso na convivência e com extraordinária vocação para ensinar. Sabia transmitir conhecimento e, ao mesmo tempo, oferecer uma palavra de conforto.

São estas e outras histórias que colorem nossa Academia.

Na Academia,

Cada cadeira guarda uma biografia.

Cada patrono encarna um legado.

Cada acadêmico recebe uma herança e acrescenta a ela uma parcela de sua própria história.

É assim que uma instituição atravessa o tempo.

Somos, no momento, 84 acadêmicos, entre titulares, eméritos e associados.

Somos parte muitas histórias, diferentes gerações e experiências, representando as diversas regiões deste imenso Brasil.

Mas precisamos ser, acima de tudo, uma Academia.

Uma comunidade em que fraternidade e solidariedade não sejam apenas palavras, mas formas de convivência.

Uma instituição comprometida com princípios científicos, éticos, morais e culturais.

Uma Casa que cultive o conhecimento, estimule o ensino e a pesquisa e reconheça na cultura e na arte dimensões essenciais na formação humana.

Que saiba preservar a tradição sem fazer dela imobilismo.

Carlos Drummond de Andrade, em Mãos dadas, escreveu:

“O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.”

É neste tempo presente — enriquecido pela memória daqueles que vieram antes de nós e comprometido com aqueles que ainda virão — que somos chamados a agir.

Honrar o passado.

Cuidar do presente.

Construir o futuro.

É com esse espírito que assumo hoje a Presidência da Academia Brasileira de Reumatologia.

A Diretoria que me acompanhará nesta missão é formada por pessoas de reconhecida competência, experiência e compromisso:

Blanca Elena Rios Gomes Bica, Vice-Presidente;

Wanda Eloisa Rodrigues Ferreira, Secretária-Geral;

Sandra Lúcia Euzébio Ribeiro, Primeira Secretária;

Rina Dalva Neubarth, Tesoureira;

Rafael Navarrete Fernandez, Vice-Tesoureiro;

Georges Basile Chistopoulos, Diretor Científico

Fernando Neubarth, Diretor de ética, normas e regimentos

É uma Diretoria plural.

Somos cinco mulheres, vindas do Sudeste e do Norte deste imenso país, ao lado de três colegas provenientes do Centro-Oeste, do Nordeste e do Sul

Uma Diretoria que, em sua própria composição, traduz a diversidade do Brasil.

Temos ainda o Conselho Fiscal constituído por ex-presidentes, excluídos os que fazem parte desta diretoria, para preservar a transparência. São eles:

Abel Pereira de Souza Júnior, Lauredo Ventura Bandeira e Mário Newton L. Azevedo: Membros titulares

Antonio Carlos Ximenes e João Francisco Marques Neto: Membros suplentes

O Conselho deliberativo constituído por Adil Muhib Samara; Joao Carlos Tavares Brenol, José Roberto Provenza, Sebastião Cezar Radominski e Mauro Keiserman

E a comissão de cultura, constituída por: Percival Degrava Sampaio Barros, Valderílio Feijó Azevedo e Hellen Mary Silva Carvalho

Espero que tenhamos ousadia para propor e serenidade para ouvir; firmeza para decidir e sabedoria para ponderar.

Talvez resida justamente aí uma de nossas maiores forças: pensarmos de formas diferentes, compartilhando os mesmos princípios e o mesmo compromisso com a Academia.

Toda instituição viva precisa, de tempos em tempos, olhar para si mesma.

Não para negar sua história, mas para compreendê-la.

Não para romper com aquilo que foi construído, mas para discernir o que deve ser preservado, o que pode ser aperfeiçoado e o que precisa ser renovado.

Faço essa afirmação com profundo respeito por todos os que me antecederam.

Cada presidente, cada diretoria e cada acadêmico que me precedeu ofereceu seu trabalho, seu tempo e sua dedicação para que a Academia Brasileira de Reumatologia se consolidasse, crescesse e alcançasse o lugar que hoje ocupa.

Nossa diretoria está aqui para continuar nessa trajetória.

E continuidade não significa repetição.

Significa receber aquilo que foi construído, preservar sua essência e ter a coragem de fazê-lo avançar.

É isso que pretendemos fazer.

Aperfeiçoar o que for necessário.

Criar novas oportunidades.

Abrir novos caminhos.

E, principalmente, fazer com que cada acadêmico se reconheça, cada vez mais, como parte viva da Academia.

Precisamos redescobrir e valorizar nossos ritos.

Porque os ritos acadêmicos não são simples formalidades.

São a linguagem simbólica por meio da qual uma instituição manifesta respeito por sua história, por seus membros e por sua própria identidade.

As cerimônias, as posses, as homenagens, as sessões científicas, a evocação dos patronos e a memória daqueles que nos antecederam não são ornamentos da vida acadêmica.

São parte da sua essência.

Uma Academia sem memória perde sua identidade.

Uma Academia sem ritos perde parte de sua alma.

Por isso, desejamos recuperar, fortalecer e, quando necessário, atualizar nossos ritos, restituindo-lhes o significado, a solenidade e a dignidade que merecem.

Também será necessário rever e atualizar nosso Estatuto e nosso site institucional, adequando instrumentos e estruturas às necessidades de uma instituição que precisa dialogar com o seu tempo.

Precisamos também fortalecer nossos canais de comunicação.

Vivemos em uma época marcada pela velocidade da informação. Por isso mesmo, cabe a uma instituição como a nossa preservar, também em seus espaços digitais, a qualidade do diálogo que sua história exige.

Que esses espaços sejam lugares de convivência acadêmica, científica e cultural que nos informem, nos aproximem e nos enriqueçam.

E que a pluralidade de ideias seja sempre exercida com respeito, civilidade e elegância.

Porque uma Academia deve saber acolher a divergência sem permitir que ela enfraqueça a fraternidade.

Mas uma Academia não pode viver apenas de sua história.

Ela precisa estar viva no presente.

Precisamos estimular os acadêmicos mais jovens e aproximá-los da experiência daqueles que vieram antes.

Aproximar associados, eméritos e titulares.

Valorizar nossa produção científica e intelectual.

Fortalecer o ensino.

Estimular a pesquisa.

Abrir espaço para novas ideias.

Aproximar a Reumatologia de outras áreas do conhecimento.

E recordar, sempre, que a Medicina é também cultura.

A ciência nos permite compreender.

A arte amplia nossa sensibilidade.

A música nos emociona.

A literatura nos ensina a reconhecer o outro em sua complexidade.

E a Medicina, quando exercida em sua plenitude, necessita de todas estas dimensões.

Desejo uma Academia rigorosa na ciência, firme na ética e generosa na convivência.

Uma Academia que reverencie seus grandes mestres e saiba, ao mesmo tempo, escutar aqueles que chegam.

Que preserve sua história sem temer a transformação.

Uma Academia mais presente.

Presente entre seus acadêmicos.

Presente na ciência.

Presente no ensino.

Presente na cultura.

Presente na sociedade.

E, sobretudo, presente na formação das próximas gerações.

Não faremos tudo de uma só vez.

Nem temos a pretensão de resolver, em uma única gestão, todos os desafios de uma instituição construída ao longo de tantas décadas.

Mas temos disposição para trabalhar.

E sabemos que nenhuma Diretoria, por mais dedicada que seja, transforma uma Academia sozinha.

A Academia pertence a todos nós.

À Diretoria cabe conduzi-la.

Aos acadêmicos cabe dar-lhe vida.

Por isso, quero convidá-los não apenas a acompanhar esta gestão.

Quero convidá-los a construí-la conosco.

A propor.

A sugerir.

A ponderar.

A criticar, quando necessário.

E, sobretudo, a participar.

Que, ao final desta gestão, possamos olhar para trás com serenidade e reconhecer que fizemos aquilo que nos cabia.

Que honramos aqueles que vieram antes.

Que acolhemos aqueles que caminharam conosco.

E que deixamos uma Academia ainda mais sólida, mais viva e mais preparada para aqueles que virão depois de nós.

Talvez seja essa uma das mais belas missões de uma Academia:

receber um legado,

zelar por ele,

enriquecê-lo

e transmiti-lo à geração seguinte.

Hoje recebo esse legado com humildade e orgulho

E, sobretudo, com a certeza de que não estou sozinha.

Tenho ao meu lado uma Diretoria comprometida.

Caminho ao lado dos 84 acadêmicos atuais que representam uma parcela preciosa da história da Reumatologia brasileira, com a memória e o exemplo daqueles que construíram esta Casa e com a disposição de agregar os novos.

Que nossos patronos continuem a nos inspirar.

Que a ciência continue a nos orientar.

Que a ética continue a nos balizar.

Que a fraternidade continue a nos aproximar.

E que a cultura e a arte nos recordem, sempre, que, antes dos títulos e das distinções, antes mesmo de sermos médicos e acadêmicos, somos seres humanos.

Honrar o passado.

Cuidar do presente.

Construir o futuro.

Há mais de quatro décadas, quando esta Academia começava a escrever sua história, eu estava lá.

Hoje, ao assumir sua Presidência, tenho o privilégio de estar aqui.

Entre aquele início e esta tarde há uma vida dedicada à Medicina, à Reumatologia, ao ensino e a esta Casa.

E há, sobretudo, uma certeza:

somos elos de uma história que nos antecede e que haverá de prosseguir depois de nós.

Recebemos esta Academia daqueles que vieram antes.

Cabe-nos agora honrá-la, fortalecê-la e prepará-la para aqueles que virão.

Que saibamos estar à altura do legado que recebemos.

E que, um dia, aqueles que nos sucederem possam olhar para este tempo e reconhecer que também nós fizemos a nossa parte.

Nesta tarde, portanto, não brindo apenas à gestão que se inicia.

Brindo à perenidade desta Casa.

À ciência que honra a tradição, sem temer a inovação.

E à Medicina que, para ser verdadeiramente excelente, jamais pode deixar de ser humana.

À Academia Brasileira de Reumatologia.

Muito obrigada.

Boa tarde!

Drª Sueli Caneiro, Emérita da Cadeira 8