ACHILES DE ALMEIDA CRUZ FILHO, patrono da Cadeira 45.
Nasceu em Caxias (Maranhão), a 10 de julho de 1937, filho do médico Dr. Achilles Cruz e da Senhora Dona Carmelita Simão Cruz. Graduou-se em 1961 pela Faculdade de Medicina hoje integrada à Universidade Federal de Minas Gerais.
Cursou os estudos primários no Grupo Escolar Gonçalves Dias, em Caxias, e os secundários no Colégio Maranhense, em São Luís. Com a mudança da família para Belo Horizonte, fez o curso científico no vetusto Colégio Loyola, dos padres jesuítas, concluindo-o em 1955.
Estudante brilhante, aquele nortista inteligente prestou dois vestibulares concomitantes: obteve o 1º lugar entre 512 candidatos na federal e o 14º, entre 340, nas Ciências Médicas. Preferiu a primeira.
Durante o curso médico, frequentou a Clínica Propedêutica Médica do Professor João Galizzi, da qual foi interno residente (1959–1961), e o Serviço de Reumatologia da Cátedra de Clínica Médica Primeira, cujo catedrático era nosso eminente patrono, o Professor Caio Benjamim Dias (1960–1961). Já formado, permaneceu naquele serviço que, desde os tempos de interno (janeiro de 1960), lhe incutira a preferência pela Reumatologia.
Em 1963 conseguiu bolsa de estudos e viajou para a Alemanha Federal, especializando-se na Clínica Reumatológica Landesbad, em Aachen. Ficou dois anos na Europa, frequentando também o Instituto Português de Reumatologia, em Lisboa, sob a direção do Dr. Assunção Teixeira, grande amigo do Brasil e dos brasileiros.
De volta, dirigiu-se a Caxias, para um estágio de reencontro. A caminho de Belo Horizonte, deu-me a honra e o prazer de visitar-me em meu modesto serviço, no Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Ceará. Impressionou-me aquele rapaz jovem, de elevada estatura, tanto pelo físico e pela lhaneza quanto pelos conhecimentos, profundo na especialidade, com noções próprias da origem germânica — até um pouco distanciadas da ortodoxia americana e inglesa a que estávamos acostumados.
Desde então, ficou-me a admiração por aquele jovem, que viria a tornar-se uma das figuras mais sérias da especialidade no Brasil. Disso ele daria sobejas provas ao doutorar-se em Clínica Médica pela Faculdade de Medicina da UFMG, em 1968, com a tese sobre as fibrosites da nuca. Na mesma instituição, submeteu-se a outro brilhante concurso (1974), para Docência Livre em Reumatologia, discorrendo sobre o “Tratamento da Artrite Reumatoide com três citostáticos alquilantes”.
No ensino formal da especialidade, vinculou-se à Faculdade de Ciências Médicas de Belo Horizonte, da qual se tornou Titular de Reumatologia. O convênio dessa faculdade com o Hospital Arapiara — de cujo corpo clínico é elemento de destaque — fez dele, como fundador, o Chefe da Residência na especialidade, a primeira e única, por largos anos, a ser ministrada em Minas Gerais. Paralelamente, dedicou-se à Fisiatria, na qual se especializou em 1972, naquele Hospital Modelo, fruto do idealismo de Delcides Baumgratz.
Na Alemanha, foi admitido como Sócio Efetivo da Sociedade Alemã de Reumatologia, a mesma condição que detém na Sociedade Brasileira de Reumatologia. Vinculou-se também à Sociedade Mineira da especialidade, da qual foi Presidente (1966–1968), e, na Sociedade Brasileira, foi Diretor Científico na diretoria de 1970–1972, sob a presidência de Geraldo Gomes de Freitas. É ainda Membro Titular da Sociedade Brasileira de Medicina Física e Reabilitação desde 1971.
Passou a frequentar regularmente os Congressos Brasileiros de Reumatologia a partir do VI, em São Paulo (1966). Múltiplos são os temas de sua bagagem científica, com preferência pelo Lúpus Eritematoso Sistêmico e pela Artrite Reumatoide. Seus trabalhos apresentados e publicados chegam a uma centena, dos quais cerca de uma dúzia no estrangeiro.
Apesar da intensa atividade no Brasil, Aquilles mantém vivo o vínculo com a Reumatologia alemã, visitando regularmente a clínica especializada de Aachen e desenvolvendo pesquisas conjuntas. Para lá encaminha colegas brasileiros — cerca de meia dúzia — que ali estagiam, num intercâmbio que também traz ao Brasil, em congressos nacionais (desde 1980), comunicações da maior importância. Assim, têm-nos visitado insignes reumatologistas alemães, como E. Genth, P. W. Härtl e W. Dihlmann, que se tornaram sócios honorários da SBR.
Aquilles é um homem que cultiva a memória, tão esquecida no Brasil. Como tal, ficou encarregado da História da Reabilitação na Faculdade de Ciências Médicas de Belo Horizonte, de onde saíram trabalhos históricos seus: “Histórico da Reabilitação no Brasil” e “Cem anos da descrição do LES”. Além disso, no compêndio de que é Editor Geral — Clínica Reumatológica (Guanabara Koogan, RJ, 1981) —, dedicou importante capítulo à História da Reumatologia.
Por tudo isso, tornou-se merecedor da escolha, pelos fundadores da Academia Brasileira de Reumatologia, para figurar, aos 44 anos, como Patrono e Membro Titular da Cadeira Nº 35.
Texto de Geraldo Wilson da Silveira Gonçalves, no livro “Reumatologia Brasileira: Precursores e Pioneiros”.