O símbolo da Medicina

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* José Marques Filho

A Medicina é uma profissão milenar.

Possivelmente seja a área do conhecimento humano que mais influencia o comportamento da sociedade. Inserções diárias na mídia são muito frequentes, divulgando novas descobertas, tratamentos e notícias médicas.

Mas qual seria o símbolo ou o ícone, que quando presente, sem sobra de dúvida, indicasse que o assunto se refere à Medicina.

Diversos símbolos podem ser evocados e têm sido utilizados na comunicação visual quando se quer chamar a atenção do usuário para assuntos da área médica.

Um dos símbolos utilizado com certa frequência é a figura de Asclépio, Deus grego da Medicina, representado por um bastão tosco com uma serpente enrolada.

Equivocadamente, às vezes, se usa o caduceu, um bastão mais bem trabalhado, com duas serpentes dispostas em espiral ascendente, simétricas e opostas, completada com duas asas na sua extremidade superior.

Este símbolo representa Hermes, Deus grego relacionado ao comércio e aos viajantes. Além disso, outras profissões da área da saúde têm símbolos semelhantes.

Outra opção seria o busto do Pai da Medicina – Hipócrates de Cós – sendo muito divulgado na literatura médica, mas pouco conhecido do público leigo. Além disso, não se conhece até hoje a verdadeira fisionomia do mais famoso médico de todos os tempos.

Indiscutivelmente, em minha visão, o verdadeiro símbolo da Medicina é o estetoscópio.

Qualquer folder, cartaz ou divulgação na mídia onde aparece esse verdadeiro e único ícone da profissão, sabe-se imediatamente que o assunto se refere à Medicina, de forma geral, ou algum profissional da área médica.

Qualquer pessoa, de qualquer profissão, rapidamente reconhecerá, imediatamente, que se trata da área médica.

A palavra estetoscópio deriva de duas expressões gregas: sthetos (peito) e scopein (examinar). Foi sugerida pelo próprio inventor deste verdadeiro divisor de águas da Medicina, o médico francês René Laennec.

A introdução deste instrumento na prática médica mudou completamente a técnica da realização do exame físico do paciente, contribuindo enormemente para o aperfeiçoamento de uma nova disciplina – a propedêutica médica ou semiologia.

Laennec foi músico e poeta. Nasceu na baixa Bretanha em 1871, sendo criado por seu tio Guilherme, médico em Nantes.

Estudou Medicina em Paris, tendo por colegas dois futuros famosos autores médicos – Dupuytrein e Corvisard. Foi sempre considerado um menino prodígio, consagrando-se como um dos mais jovens clínicos francêses e competente cirurgião.

A tísica, como era conhecida a tuberculose, era o grande desafio dos médicos nessa época. A doença, com rica sintomatologia ligada ao aparelho respiratório, poderia inexplicavelmente se resolver num curto prazo ou condenar o enfermo inexoravelmente à morte.

Passeando certa ocasião pelos jardins do Louvre, meditando serenamente sobre sua vida e seu trabalho, observou um grupo de garotos divertindo-se com grande alarido. Um deles aplicava o ouvido à barra de madeira, enquanto do outro lado o companheiro arranhava a madeira com a unha ou com um prego. O ruído transmitia-se pela barra, ressonando nos ouvidos, ocasionando saudável diversão aos garotos.

O jovem clínico ficou longo tempo a contemplá-los, distraído, mas, de súbito, tem um sobressalto – eis que se abre a possibilidade e o caminho para a auscultação mediata ao exame clínico.

Chamado, no dia seguinte, para avaliar uma jovem paciente obesa, cuja sintomatologia sugeria problemas cardíacos, Laennec tenta a percussão, mas o som perdia-se nas paredes torácica. A idade e o sexo da paciente impediam-no de aplicar o ouvido diretamente no tórax. Para surpresa de todos na enfermaria, enrola um pedaço de papel, formando um canudo longo, aplicando-o na altura do coração, tornando muito nítida para seus ouvidos treinados, as bulhas cardíacas.

Pelo resto de sua vida e carreira médica, continuou a aperfeiçoar o método, renovando a emoção a cada paciente e a cada novo diagnóstico.

No inicio, jocosamente, seus companheiros o chamavam de “o doutor do canudo”.

Logo substituiu o cilindro de papel por outro de madeira e denomina, definitivamente, o instrumento de estetoscópio,

O jovem médico segue um maravilhoso método de aprendizagem – anota cuidadosamente todos os achados. Todos os sons que lhe chegam aos ouvidos sensíveis de músico é catalogado nas imagens críticas de seu cérebro e em suas anotações. Compara minuciosamente seus achados com a observação necroscópica, que realiza regularmente em seus pacientes.

Chama de “pectorilóquia” o fato da voz do paciente ser transmitida à caixa torácica quando ouvida pelo aparelho.

Através de seu método e senso clínico, classifica e identifica as diversas doenças pulmonares, sistematizando e classificando todas elas, além de diferenciar, claramente, a tísica de outras enfermidades pulmonares.

O jovem médico e genial francês não foi apenas o arguto inventor da auscultação, mas tornou-se um cuidadoso e obstinado estudioso das doenças pulmonares.

Descreveu, com brilhantismo de um gênio e a tenacidade própria dos pioneiros, sinais e achados acústicos da maior parte das doenças pulmonares. Discriminou e descreveu, com detalhes, o diagnostico da pneumonia aguda, do enfisema pulmonar, do derrame pleural e do pneumotórax.

Em sessão solene no dia 28 de junho de 1818, na Academia Francesa de Medicina, apresenta solenemente sua descoberta.

Para sua surpresa e decepção, a apresentação foi recebida com fria formalidade acadêmica por seus pares, em certo clima de descredito e pouco entusiasmo.

Prossegue com determinação seu cuidadoso trabalho, publicando em 1819, seu famoso livro “L’auscultation médiate” e a cada comprador da obra, oferece um estetoscópio de madeira.

Foi nomeado professor e chefe da cadeira de Clínica Médica da Charité, em Paris. Recebe, então, médicos de toda França e da Europa para estágio em seu hospital.

Morre em 1826, em sua cidade natal, no auge da fama de médico e professor. A causa foi uma doença pulmonar – possivelmente, tuberculose – que tanto combateu.

* José Marques Filho é membro da Academia Brasileira de Reumatologia